Escola não muda educação sozinha, diz chefe de faculdade de NY

Presidente da faculdade de educação mais tradicional dos EUA, Susan Fuhrman afirma que a escola tem papel limitado, ainda que importante, para a melhoria da qualidade do ensino. "Precisamos complementar o ensino competente com uma série de outros serviços, como educação infantil de qualidade e bom atendimento mental e de saúde", disse Fuhrman, presidente do Teachers College (faculdade de educação da Universidade Columbia, de Nova York).

"As escolas sozinhas não conseguirão diminuir as desigualdades educacionais", disse Fuhrman, graduada em história pela Universidade Northwestern e doutora em ciência política e educação pelo Teachers College.

A educadora participará na próxima terça-feira (13) de seminário no Rio sobre a implementação da base nacional curricular, política aprovada ano passado que visa mostrar o que os alunos brasileiros devem saber em cada série.

Para Fuhrman, essa é uma iniciativa que pode contribuir para o ensino ser mais competente, pois organiza o sistema educacional. Passa a ter um eixo no país a formação de professores e a elaboração de materiais didáticos.

RAIO-X

Formação
Graduada e mestre em história, com doutorado em ciência política no Teachers College (Universidade Columbia)

Carreira
Ex-presidente da Academia Nacional de Educação. Presidente do Teachers College desde 2007

E, mais importante, norteia elaboração de currículos, documentos estaduais e municipais que mostram as atividades a serem adotadas para alcançar os objetivos presentes na base nacional.

A adoção dessas mudanças está prevista para 2019. Para Fuhrman, foi justamente na elaboração dos currículos que política semelhante nos EUA se perdeu.

Lançado em 2010, o Common Core (núcleo comum) começou com amplo apoio, mas passou a enfrentar resistências de professores, pais e educadores —já foi abandonado por ao menos 8 de 45 Estados (nos EUA, o programa é opcional).

Como o Brasil, os EUA tentam melhorar a qualidade da educação. Os americanos estão abaixo da média dos países desenvolvidos em matemática no Pisa, principal avaliação internacional de ensino. O Brasil ocupa a 65ª posição, entre 70 países.

Nesta entrevista, concedida por email à Folha, Fuhrman fala sobre desafios e possibilidades para o Brasil —ela vem ao país a convite da Columbia Global Centers, do centro de excelência em políticas educacionais (FGV) e da Fundação Lemann.

O Teachers College, em parceria com a Fundação Lemann, pesquisará implementação da base curricular brasileira, até 2023. Serão entrevistadas autoridades e acompanhadas escolas em três estados, a serem definidos.

Folha - Brasil e Estados Unidos tentam melhorar a qualidade da educação e reduzir desigualdade entre alunos de alta e baixa renda. Quais são as principais ações para atingir esses objetivos?
Susan Fuhrman - A desigualdade educacional, nos Estados Unidos e no Brasil, é fruto de diversas outras desigualdades. Precisamos oferecer ensino melhor e escolas mais efetivas para todos os alunos. Para isso, é preciso respeitar os professores, pagá-los bem e criar boas condições de trabalho. Também precisamos conscientizá-los de que estudantes vêm de diferentes contextos e que são necessárias estratégias para individualizar o ensino, para contemplar dificuldades e qualidades de cada aluno. 
Graças à neurociência, à ciência cognitiva, à psicologia e a outros campos, vivemos era de grandes avanços para compreender como pessoas aprendem, incluindo o papel do emocional e do social. Precisamos incorporar tudo na preparação dos professores.
Porém, as escolas sozinhas não conseguirão diminuir as desigualdades educacionais. Se aprendemos algo desde a publicação do "Relatório Coleman", nos anos 1960 [estudo que acompanhou o desenvolvimento de 650 mil estudantes], é que saúde, habitação ruim e bairros perigosos afetam desproporcionalmente estudantes de baixa renda, criando enormes barreiras para a aprendizagem. 
Kimberly Noble, neurocientista na nossa faculdade, mostrou que o desenvolvimento cerebral é menor em crianças de famílias mais pobres. 
Por isso, precisamos complementar o ensino competente com outros serviços, como ensino infantil de qualidade, bom atendimento de saúde e mental, acesso a equipamentos culturais, programas extraclasse e muito mais.
É um grande investimento, mas o retorno é muito maior do que o custo para consertar as coisas mais para frente.

O Brasil está implementando a base nacional curricular, na tentativa de melhorar a qualidade da educação. O que a sra. acha dessa política?
Padrões nacionais têm o potencial de serem muito benéficos, se usados como forma de alinhar políticas que influenciam na aprendizagem, como currículos, materiais didáticos, preparação docente, exames e por aí vai. 
O currículo é especialmente importante, pois, uma vez decidido o que o aluno deve aprender, todas as outras peças devem se encaixar aí.
Nos EUA houve um problema. Por causa da nossa tradição de controle local, governo federal e estados ficaram alheios à criação de currículos. O vácuo foi ocupado por desenvolvedores de exames padronizados e pela ênfase em responsabilização [de escolas e de profissionais] com base em resultados de testes. 
Os testes se transformaram no currículo "de facto", e o resultado é que estreitamos muito o que é ensinado. 
Vemos agora forte reação de pais e educadores, exigindo ensino mais rico e menos direcionado para os testes.
Espero que o Brasil não repita o mesmo erro. Os padrões podem ser extremamente úteis, porque o país é imenso e muito diverso. Se bem implementados, os padrões podem ajudar a solidificar todo o esforço educacional.

Em quais pontos a base nacional brasileira se assemelha e se distancia da iniciativa americana?
Concordo com a economista Vera Cabral, pesquisadora da Fundação Lemann no Teachers College. Os padrões brasileiros estão desafiando o Brasil a mudar o ensino baseado no conteúdo para uma educação baseada em competências, algo que o Common Core também busca.
Queremos que alunos pensem criticamente, que façam perguntas certas, que saibam onde encontrar informações.

Alunos do primeiro ano do fundamental de colégio em SP em aula de alfabetização - Diego Padgurschi - 27.mar.2017/Folhapress)

O Brasil não terá apoio financeiro para implementar a base nacional como os Estados Unidos tiveram [nos EUA foram cerca de R$ 3,5 bilhões em dinheiro federal; no Brasil, foram reservados R$ 100 milhões até agora]. Quão problemática pode ser essa situação?
Financiamento certamente é algo crítico ao se implementar uma política. É uma medida de esforço político e uma variável chave para determinar quão abrangente e equitativo será o impacto da política. 
Para fazer os padrões nacionais efetivamente funcionarem é necessário investimentos pesados para desenvolver currículos, preparar professores para ensiná-los e fornecer recursos às escolas para que os alunos aprendam.

No Brasil, a maioria dos estudantes de ensino médio que se tornam professores vem de grupos com os piores resultados acadêmicos, o que pode prejudicar o desempenho como docente. É possível mudar esse panorama?
Não devemos desencorajar pessoas com baixo rendimento acadêmico a se tornarem professoras. Elas podem ter grande motivação para melhorar sua própria situação e a dos outros. 
Mas precisamos também atrair os jovens de alto rendimento acadêmico. Nos EUA, não damos bons salários aos professores nem recursos adequados. Esperamos que eles trabalhem muitas horas e que, frequentemente, atinjam objetivos que não têm a ver com real aprendizagem. 
São culpados pelo desempenho dos estudantes, sendo que a maior parte do problema vem de outras dificuldades socioeconômicas. Se queremos que os melhores cérebros sejam atraídos para o magistério, tudo isso precisa mudar. 
Mas não basta atrair alunos com boas notas para o magistério. Se eles não forem bem treinados, não conseguirão entrar numa sala de aula e fazer bom trabalho.

Especialistas reclamam que as faculdades de educação têm cursos muito acadêmicos e pouco práticos, o que pode ser uma causa da má qualidade do ensino. Qual sua opinião?
As pessoas também veem o Teachers College como muito teórico. Acho que é algo equivocado. Acreditamos que teoria e prática devem caminhar juntas. O diferencial para quem faz curso numa faculdade que investe em pesquisa é que você está se preparando para o amanhã. É muito conservador avaliar o profissional apenas observando as atuais boas práticas.

A sra. foi diretora da Pearson (uma das maiores empresas de educação do mundo) e recebeu críticas na faculdade por essa relação com o setor privado (temia-se interferência na pesquisa). O que a sra. poderia dizer sobre isso?
Eu era a única educadora no comitê. Eu vim com a pergunta: "Isso funciona?". Era algo inusual. A pergunta até então era: "Isso vende?". Acho que a academia deve trabalhar com a indústria. Do contrário, não vamos gostar do que é produzido.

Qual sua opinião sobre o governo Trump para educação?
Não sabemos o que é a administração Trump para educação. Existe conversa sobre privatização, mas poucos movimentos reais até agora.

 





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