Professores de escolas pública e privada relatam experiências opostas sobre uso de ferramentas digitais

A introdução da tecnologia nas salas de aula é apontada como uma tendência irreversível, mas professores de escolas públicas e privadas relatam situações opostas quando falam sobre esse tema.

Procurados pelo R7, docentes da rede municipal reclamam da falta de infraestrutura e de treinamento, enquanto os da rede particular elencaram as vantagens trazidas pelas ferramentas tecnológicas.

Na cidade de São Paulo, as escolas municipais têm à disposição o Edmodo, um ambiente que propõe a colaboração virtual entre professores e alunos. Além disso, o EducaPX possibilita que estudantes e docentes façam publicações em sites.

Já o SGP (Sistema de Gestão Pedagógica) é uma plataforma online onde o professor registra as práticas em aula, os resultados das avaliações e o acompanhamento das presenças. O coordenador tem acesso ao conteúdo e faz as suas avaliações.

O aluno e sua família também têm podem entrar na plataforma online para fazer comentários e identificar o que é preciso melhorar quanto ao desempenho na escola.

Apesar destas iniciativas, professores da rede reclamam de falta de condições para utilizar os tablets disponibilizados, desde 2012.

A professora de história na rede municipal paulista, Cibele de Camargo Lima, conta que os aparelhos foram distribuídos sem que houvesse sido feito um planejamento e treinamento adequado para docentes.

Na sua escola, há cerca de 30 tablets para 80 professores utilizarem apenas durante o trabalho. Os aparelhos não podem ser levados para casa.

— O uso do tablet veio implantado de um jeito que exige que o professor preencha um diário de classe virtual durante a aula. Ou a gente preenche o boletim virtual, ou damos aula, não tem como fazer tudo em 45 minutos. O que está acontecendo é uma sobrecarga do nosso horário de trabalho.

Ela conta que as escolas recebem uma lista cobrando os professores que não preencheram o boletim virtual na sala de aula.

— Alguns professores estão com medo de represálias e acabam preenchendo os diários virtuais em casa, usando a sua própria internet aos finais de semana ou fora do horário de aula na sala de informática da escola.

Esclarecimentos

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Educação garante que “o registro de aulas (chamada) em meio digital, por se apresentar como uma inovação na SME, tendo em vista a implantação, possui período dilatado para seu preenchimento”.

— O SGP está em processo de apropriação pelas escolas. Desta forma, os registros típicos da atividade pedagógica do docente como planejamento das aulas, registro de frequência, atividades, avaliação e notas - antes realizados em meio impresso (diário de classe), a partir deste ano são substituídos pela realização em meio digital, online. O planejamento das aulas, que no contexto da Mais Educação São Paulo se realiza em grande parte por meio de atividade conjunta entre o professor e seus pares, está previsto para os horários de atividades coletivas.

A Secretaria garante ainda que há um sistema online em professores podem tirar dúvidas sobre como utilizar o sistema do tablet.

Escolas particulares

No Colégio Porto Seguro, em São Paulo, a percepção sobre o uso de aparelhos e plataformas tecnológicas é outra. Alunos e professores têm acesso a um espaço virtual de estudos, que traz exercícios de fixação que dão apoio ao conteúdo aprendido na sala de aula para cada turma de séries diferentes. Renata Pastore, diretora-geral de tecnologia educacional da instituição, explica a iniciativa.

— Pensamos em montar uma sala de aula online no Moodle [plataforma de compartilhamento de conteúdos online] da escola. A ideia era fazer uma ponte entre a escola e o aluno.

Já Juliana Ortiz, professora do ensino fundamental I do colégio, explica que a experiência transforma a forma de estudar e de ensinar.

— No momento que eu pego o planejamento da sala e penso o que ensinei naquela semana dentro da minha sala de aula, tenho que pensar depois em como transpor isso para o Moodle. Então partilho essas ideias com a equipe de tecnologia da escola.

A professora contou que propôs a realização de um livro que também teve uma versão digital.

— Já chegamos a fazer aulas com vídeo conferências para possibilitar a interação e troca de conteúdo com alunos que não podiam assistir a aulas por motivos de saúde. A turma se modificou muito ao longo desse período, foi um movimento muito cativante, avalia a professora.

 


Tecnologia pode transformar professor em designer digital, dizem especialistas

Portal R7

A tecnologia está mudando a forma como crianças e jovens querem aprender e obter informações e, claro, as metodologias de ensino usadas nas escolas.

Especialistas que tratam do tema disseram ao R7 que docentes tendem a mudar a forma como dão aula até se transformarem em designers educacionais, ou seja, profissionais que pensam como, porque e quando determinados conhecimentos devem ser transmitidos aos alunos pelos meios digitais.

É o que defende Ronaldo Mota, ex-secretário de educação superior e do MEC (Ministério da Educação) e atual reitor da Universidade Estácio.

No livro Education for Innovation and Independent Learning (Educação para a inovação e para o aprendizado independente, em tradução livre), desenvolvido no Instituto de Educação da Universidade de Londres, ele explica que os docentes terão que quebrar as barreiras do ensino tradicional para se adaptar às mudanças vividas pela sociedade.

— É preciso ensinar aos atuais alunos como aprender a aprender pelos meios disponíveis. As interfaces tecnológicas que ajudam os alunos nesse processo devem ser complementares ao professor na sala de aula. Os professores terão que quebrar as barreiras do ensino tradicional.

Não há mágica

Bernadete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, reconhece a tendência de os docentes se tornarem designers educacionais. Porém, ela faz considerações sobre esse processo.

— Não será a lousa digital que vai resolver as questões da aprendizagem. É preciso formação para que professores usem este e outras tecnologias, que são muito atrativas para os jovens.

Para a pesquisadora, ainda existe uma lacuna na formação dos docentes em relação a essas questões.

— Nós não temos reformulado a formação de professores, de maneira geral. Há mais de um século repetimos os mesmos esquemas de formação. Dentro disso, ainda não existem propostas de mudanças curriculares significativas que preveem a incorporação dessas tecnologias no contexto educacional.

Barrados e conectados

Segundo dados do estudo TIC Educação, sobre recursos educacionais abertos, que foi realizado em 2013 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 96% dos professores de educação básica no País utilizam esses conteúdos para elaborar aulas e ajudar nos estudos.

A pesquisa apontou também que 88% dos docentes fazem adaptações nos conteúdos abertos disponíveis. Porém, apenas 21% dos entrevistados disseram que publicam seus materiais na web. Especialistas e professores que lidam — ou tentam lidar — com as tecnologias no cotidiano reconhecem que este cenário mostra a necessidade de formação para melhor utilizar e produzir conteúdos digitais. Também é preciso tratar das restrições a materiais pulicados na internet que docentes não podem usar nas salas de aula.

Os resultados da pesquisa Recursos educacionais abertos no Brasil: o campo, os recursos e sua apropriação em sala de aula, realizada pela Ação Educativa em parceria com a Wikimedia Foundation, mostram que apenas 10% dos sites educacionais colaborativos voltados para a docência no Brasil têm direitos autorais livres. Foram levantados e analisados mais de 230 portais desse tipo no País.

Jamile Venturini, coordenadora da pesquisa realizada pela Ação Educativa, explica que os dados mostraram que a maioria dos 231 recursos analisados não é restrita, mas, na prática, o uso permitido é limitado e fica aquém das necessidades dos professores.

— De que serve um vídeo incrível sobre o tema da minha aula se eu posso vê-lo, mas não exibi-lo para meus alunos? Ou postá-lo no blog da minha disciplina? Ou colocar legendas para torná-lo mais acessível?

Segundo Jamile, ainda existem muitos desafios para o avanço do uso das tecnologias e dos Recursos Educacionais Abertos no ambiente escolar pelos docentes.

— Há uma questão de infraestrutura que, muitas vezes, inviabiliza a democratização do acesso a essas tecnologias na escola. E isso passa não só pelo acesso aos equipamentos, mas também a uma conexão à internet de qualidade.

 

 





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